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Capítulo 3

Texto Original

Caput III

De visione hominis imaginem Seraphim crucifixi habentis.

 

94. 
1 Faciente ipso moram in eremitorio, quod a loco in quo positum est Alverna nominatur, duobus annis antequam animam redderet caelo, vidit in visione Dei (cfr. Ez 1,1; 8,1) virum unum, quasi Seraphim sex alas habentem, stantem supra se, manibus extensis ac pedibus coniunctis, cruci affixum. 
2 Duae alae supra caput elevabantur, duae ad volandum extendebantur, duae denique totum velabant corpus (cfr. Is 6,2). 
3 Cumque ista videret beatus servus Altissimi, admiratione permaxima replebatur, sed quid sibi vellet haec visio advertere nesciebat. 
4 Gaudebat quoque plurimum et vehementius laetabatur in benigno et gratioso respectu, quo a Seraphim conspici se videbat, cuius pulchritudo inaestimabilis erat nimis, sed omnino ipsum crucis affixio et passionis illius acerbitas deterrebat. 
5 Sicque surrexit, ut ita dicatur, tristis et laetus, et gaudium atque moeror suas in ipso alternabant vices. 
6 Cogitabat sollicitus, quid posset haec visio designare, et ad capiendum ex ea intelligentiae sensum anxiabatur plurimum spiritus (cfr. Ps 142,4) eius. 
7 Cumque liquido ex ea intellectu aliquid non perciperet et multum eius cordi visionis huius novitas insideret, coeperunt in manibus eius et pedibus apparere signa clavorum, quemadmodum paulo ante virum supra se viderat crucifixum.

 

95. 
1 Manus et pedes eius in ipso medio clavis confixae videbantur, clavorum capitibus in interiore parte manuum et superiore pedum apparentibus, et eorum acuminibus exsistentibus ex adverso. 
2 Erant enim signa illa rotunda interius in manibus, exterius autem oblonga, et caruncula quaedam apparebat quasi summitas clavorum retorta et repercussa, quae carnem reliquam excedebat. 
3 Sic et in pedibus impressa erant signa clavorum et a carne reliqua elevata. 
4 Dextrum quoque latus quasi lancea transfixum, cicatrice obducta, erat, quod saepe sanguinem emittebat, ita ut tunica eius cum femoralibus multoties respergeretur sanguine sacro. 
5 Heu quam pauci, dum viveret crucifixus servus Domini crucifixi, sacrum lateris vulnus cernere meruerunt! 
6 Sed felix Helias, qui, dum viveret sanctus, utcumque illud videre meruit; sed non minus felix Rufinus qui manibus propriis contrectavit (cfr. 1Joa 1,1). 
7 Enimvero cum semel dictus frater Rufinus manum suam in sinum sanctissimi viri, ut eum scalperet, immisisset, dilapsa est manus eius, ut saepe contingit, ad dextrum latus ipsius, et occurrit ei pretiosam illam tangere cicatricem. 
8 Ad cuius tactum sanctus Dei non modicum doluit, et manum a se repellens, ut ei parceret Dominus (Gen 19,16) acclamavit. 
9 Studiosissime namque abscondebat haec ab extraneis, celabat cautissime a propinquis, ita ut et collaterales fratres et eius devotissimi secutores haec per multum temporis ignorarent. 
10 Et licet tantis ac talibus margaritis tamquam pretiosissimis gemmis (cfr. 2Par 9,9) servus et amicus Altissimi se videret ornatum, atque supra omnium hominum gloriam et honorem (cfr. Sir 3,19; Ps 8,6) mirifice decoratum, non evanuit tamen in corde suo, nec quaesivit inde alicui per appetitum vanae gloriae complacere (cfr. Gal 1,10); 
11 sed, et ne humanus favor fatam sibi gratiam furaretur, modis omnibus quibus poterat haec abscondere (cfr. Mat 6,18.19) satagebat.

 

96. 
1 Mos etenim ipsius erat raro aut nulli praecipuum revelare secretum, timens specie praecipuae dilectionis ex eorum revelatione, sicut solent facere praedilecti, pati aliquod in data sibi gratia detrimentum (cfr. Rom 12,3; 2Cor 7,9). 
2 Gerebat proinde semper in corde suo et in ore frequenter habebat propheticum illud: “In corde meo abscondi eloquia tua, ut non peccem tibi” (Ps 118,11). 
3 Quoties vero ex saecularibus ad eum aliqui convenissent, ab eorum collocutione cupiens abstinere, fratribus et filiis qui secum morabantur tale dederat signum, ut cum videlicet praedictum versiculum recitaret, statim eis qui convenerant modeste licentiam exhiberent. 
4 Expertus namque fuerat, magnum fore malum cuncta communicare cunctis et spiritualem sciebat esse non posse, cuius secreta perfectiora et plura non sunt quam quae in facie videntur (cfr. 2Cor 10,7) et ex apparentia possunt in unaquaque parte ab hominibus iudicari. 
5 Invenerat enim aliquos sibi exterius concordantes et interius dissidentes, applaudentes coram, irridentes retro, qui iudicium sibi (cfr. 1Cor 11,29) acquisierunt et rectos ei suspectos aliquantulum reddiderunt. 
6 Saepe namque malitia denigrare nititur puritatem, et propter mendacium familiare multis, paucorum non creditur veritati (cfr. 2The 2,11).

Texto Traduzido

Caput III

Da visão do homem com a imagem de um Serafim crucificado.

 

94. 
1 Dois anos antes de entregar sua alma ao céu, estando no eremitério que, por sua localização, tem o nome de Alverne, Deus lhe deu a visão de um homem com a forma de um Serafim de seis asas, que pairou acima dele com os braços abertos e os pés juntos, pregado numa cruz. 
2 Duas asas elevavam-se sobre a cabeça, duas abriam-se para voar e duas cobriam o corpo inteiro. 
3 Ao ver isso, o servo do Altíssimo se encheu da mais infinita admiração, mas não compreendia o sentido. 
4 Experimentava um grande prazer e uma alegria enorme pelo olhar bondoso e amável com que o Serafim o envolvia. Sua beleza era indizível, mas o fato de estar pregado na cruz e a crueldade de sua paixão atormentavam-no profundamente. 
5 Levantou-se triste e alegre ao mesmo tempo, se isso se pode dizer, alternando em seu espírito sentimentos de gozo e de padecimento. 
6 Tentava descobrir o significado da visão e seu espírito estava muito ansioso para compreender o seu sentido. 
7 Estava nessa situação, com a inteligência sem entender coisa alguma e o coração avassalado pela visão extraordinária, quando começaram a aparecer-lhe nas mãos e nos pés as marcas dos quatro cravos, do jeito que as vira pouco antes no crucificado.

 

95. 
1 Suas mãos e seus pés pareciam atravessados bem no meio pelos cravos, sobressaindo as cabeças no interior das mãos e em cima dos pés, e as pontas do outro lado. 
2 Os sinais eram redondos nas palmas das mãos e longos no lado de fora, deixando ver um pedaço de carne como se fossem pontas de cravo entortadas e rebatidas, saindo para fora da carne. 
3 Havia marcas dos cravos também nos pés, ressaltadas na carne. 
4 No lado direito, que parecia atravessado por uma lança, estendia-se uma cicatriz que freqüentemente soltava sangue, de maneira que sua túnica e suas calças estavam muitas vezes banhadas naquele sangue bendito. 
5 Infelizmente, foram muito poucos os que mereceram ver a ferida sagrada do seu peito, enquanto viveu crucificado o servo do Senhor crucificado! 
6 Feliz foi Frei Elias, que teve algum jeito de vê-la durante a vida do santo. Não menos afortunado foi Frei Rufino, que a tocou com suas próprias mãos. 
7 Porque, num dia em que lhe friccionava o peito, sua mão escorregou casualmente para o lado direito e tocou a preciosa cicatriz. 
8 A dor que o santo sentiu foi tão grande que afastou a mão e gritou pedindo a Deus que o poupasse. 
9 Pois tinha muito cuidado em esconder essas coisas dos estranhos, e ocultava-as mesmo dos mais chegados, de maneira que até os irmãos que eram seus companheiros e seguidores mais devotados não souberam delas por muito tempo. 
10 E o servo e amigo do Altíssimo, embora se visse ornado com jóias tão importantes como pedras preciosíssimas e assim destacado espetacularmente acima da glória e da honra de todos os homens, não se desvaneceu em seu coração nem procurou por causa disso comprazer-se em alguma vanglória. 
11 Pelo contrário, para que o favor humano não lhe roubasse a graça recebida, procurou escondê-la de todos os modos possíveis.

 

96. 
1 Tinha decidido não revelar a quase ninguém o seu segredo extraordinário, temendo que, como costumam fazer os privilegiados, contassem a outros para mostrar como eram amigos, e isso resultasse em detrimento da graça que tinha recebido. 
2 Por isso guardava sempre em seu coração e repetia aquela frase do profeta: “Escondi tuas palavras em meu coração, para não pecar contra ti”. 
3 Tinha até combinado um sinal com seus irmãos e filhos: quando queria interromper a conversa de pessoas de fora que o visitavam, recitava aquele versículo e eles tratavam de despedí-las delicadamente. 
4 Sabia por experiência como fazia mal contar tudo a todos e que não pode ser homem espiritual quem não possui em seu coração outros segredos, mais profundos do que os que podem ser lidos no rosto e julgados por qualquer pessoa. 
5 Tinha percebido que algumas pessoas concordavam com ele por fora e discordavam por dentro, aplaudiam na frente e riam-se por trás, levando-o a julgar os outros e até a suspeitar de pessoas irrepreensíveis. 
6 Infelizmente, muitas vezes deixamos de acreditar na sinceridade de poucos porque a maldade procura denegrir o que é puro e porque a mentira se tornou natural para a maioria.