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Capítulo 2

Texto Original

Caput II

Qualiter Deus visitavit cor eius per corporis infirmitatem et nocturnam visionem.

 

3. 
1 Enimvero cum adhuc vir iste iuvenili calore in peccatis fervesceret, et lubrica aetas ad explenda iuvenilia iura ipsum impelleret insolenter, ac mansuescere nesciens, antiqui serpentis foret virulentia concitatus, adest subito divina ultio vel potius unctio super eum et aggreditur primo sensum erroneum revocare, animo angustiam et corpori molestiam inferendo, iuxta illud propheticum: Ecce ego saepiam viam tuam spinis et saepiam eam maceria (cfr. Is 48,9). 
2 Sicque diu infirmitate attritus, ut meretur pervicacia hominum quae vix nisi suppliciis emendatur, coepit intra se alia solito cogitare. 
3 Cumque iam paululum respirasset et baculo sustentatus, causa recuperandae sanitatis coepisset huc atque illuc per domicilium ambulare, die quadam foras exivit et circumadiacentem provinciam coepit curiosius intueri. 
4 Sed pulchritudo agrorum, vinearum amoenitas et quidquid visu pulchrum est, in nullo eum potuit delectare. 
5 Mirabatur propterea subitam sui mutationem, et praedictorum amatores stultissimos reputabat.

 

4. 
1 Ab ea itaque die coepit seipsum vilescere sibi, et in contemptu quodam habere, quae prius in admiratione habuerat et amore. 
2 Non plene tamen nec vere, quia nondum solutus erat a vinculis vanitatum, nec perversae servitutis iugum excusserat de cervice (cfr. Gen 27,40). 
3 Gravissimum enim est assueta relinquere et animo semel iniecta non de facili enervantur; recurrit animus longo tempore segregatus ad rudimenta principii et assiduitate plerumque vitium vertitur in naturam. 
4 Tentat proinde Franciscus adhuc divinam fugere manum, et paternae correctionis paulisper oblitus, arridentibus sibi prosperis, cogitat quae sunt mundi (cfr. 1Cor 7,34) ac ignorans consilium Dei, de gloria saeculi et vanitate facturum adhuc maxima se promittit. 
5 Nam nobilis quidam civitatis Assisii, militaribus armis se non mediocriter praeparat et inanis gloriae vento inflatus, ad pecuniae vel honoris augenda lucra, iturum in Apuliam se spopondit. 
6 Quibus auditis, Franciscus, quia levis animo erat et non modicum audax, ad eundum conspirat cum illo, generis nobilitate impar sed magnanimitate superior, pauperior divitiis sed profusior largitate.

 

5. 
1 Nocte igitur quadam, cum ad haec consummanda tota se deliberatione dedisset et desiderio aestuans ad iter agendum maxime anhelaret, qui percusserat eum in virga iustitiae, per visionem nocturnam (cfr. Iob 4,13; 33,15) visitat eum in dulcedine gratiae; et quia gloriae cupidus erat, gloriae fastigio eum allicit et exaltat. 
2 Videbatur ei namque domum suam totam habere plenam militaribus armis, sellis scilicet, clipeis, lanceis et caeteris apparatibus; gaudensque plurimum, quid hoc esset, secum tacitus mirabatur. 
3 Non enim consueverat talia in domo sua videre, sed potius pannorum cumulos ad vendendum. 
4 Cumque ad subitum rerum eventum stuperet non modicum, responsum est ei, omnia haec arma sua fore militumque suorum. 
5 Expergefactus quoque animo gaudenti mane surrexit et praesagium magnae prosperitatis reputans visionem, prosperum futurum iter suum in Apuliam securatur. 
Nesciebat enim quid diceret (cfr. Mar 9,5), et munus sibi de caelo datum adhuc minime cognoscebat. 
7 In eo tamen perpendere poterat visionis huius suam interpretationem non esse veram, quia licet satis rerum gestarum utcumque similitudinem contineret, non tamen animus eius circa talia solito laetabatur. 
8 Vim namque quamdam sibimet facere oportebat, ut cogitata perficeret et iter concupitum effectui manciparet. 
9 Et quidem pulchre satis primo de armis fit mentio, et opportune multum arma traduntur contra fortem armatum militi pugnaturo, ut quasi alter David in nomine Domini Dei exercituum (cfr 1Re 17,45) ab inveterato inimicorum opprobio liberet Israelem.

 

 

Texto Traduzido

Caput II

Como o Senhor visitou-lhe o coração por meio de uma doença e de uma visão noturna

 

3. 
1 De fato, quando ele ainda vivia no pecado com paixão juvenil, arrastado pelas paixões da idade e incapaz de controlar- se, poderia sucumbir ao veneno da antiga serpente. Mas a vingança, ou melhor, a misericórdia divina, subitamente desperta sua consciência através de uma angústia na alma e de uma enfermidade no corpo, conforme as palavras do profeta: “Hei de barrar teu caminho com espinhos e cercá-lo de muralhas (cfr. Is 48,9)”. 
2 Prostrado por longa enfermidade, que é o que merece a teimosia dos homens que não se emendam a não ser com castigo, começou a refletir consigo mesmo de maneira diferente. 
3 Já um pouco melhor, e apoiado em um bastão, começou a andar pela casa para recuperar as forças. Certo dia, saiu à rua e começou a observar com curiosidade a região que o cercava. 
4 Mas nem a beleza dos campos, nem o encanto das vinhedos, nem coisa alguma agradável de se ver conseguia satisfazê-lo. 
5 Ficou surpreso com sua mudança repentina e começou a julgar estultíssimos os que amavam essas coisas.

 

4. 
1 Desde esse dia, começou a ter-se em menos conta e a desprezar as coisas que antes tinha admirado e amado. 
2 Mas não inteiramente e de verdade, porque ainda não estava livre das cadeias das vaidades, nem tinha sacudido do pescoço o jugo da perversa servidão. 
3 É muito difícil deixar as coisas com que alguém se acostumou e não é fácil libertar-se do que uma vez se aceitou. Mesmo depois de longa abstenção, o espírito volta ao que tinha aprendido e o costume geralmente transforma o vício em segunda natureza. 
4 Francisco ainda tentou fugir da mão de Deus e, quase esquecido da correção paterna, diante de uma oportunidade, pensou nas coisas que são do mundo e ignorou o conselho de Deus, prometendo a si mesmo o máximo da glória mundana e da vaidade. 
5 Pois um nobre de Assis não mediu despesas para se armar militarmente e, inchado pela glória vã, decidiu marchar para a Apúlia para ganhar mais dinheiro e honra. 
6 Sabendo disso, Francisco, que era leviano e não pouco audaz, alistou-se para ir com ele, porque era menos nobre mas de ambição maior, mais pobre mas também mais generoso.

 

5. 
1 Todo entregue a esse plano e pensando com ardor na partida, certa noite, aquele que o tinha tocado com a vara da justiça visitou-o numa visão noturna, com a doçura da sua graça. E o seduziu e exaltou pelo fastígio da glória, porque ele tinha sede de glória. 
2 Pareceu-lhe ver a casa toda cheia de armas: selas, escudos, lanças e outros aparatos. Muito alegre, admirava-se em silêncio, pensando no que seria aquilo. 
3 Não estava acostumado a ver essas coisas em sua casa, mas apenas pilhas de fazendas para vender. 
4 E ainda estava aturdido com o acontecimento repentino, quando lhe foi dito que aquelas armas seriam suas e de seus soldados. 
5 Despertando de manhã, levantou-se alegre e, julgando a visão um presságio de grande prosperidade, ficou certo de que sua excursão à Apúlia seria um êxito. 
6 Pois não sabia o que dizer e ainda não entendera nada do dom que lhe fora feito pelo céu. 
7 Em um ponto, poderia ter percebido que sua interpretação do sonho não era verdadeira porque, embora contivesse muita semelhança com coisas já acontecidas, dessa vez seu espírito não estava tão feliz como de costume. 
8 Precisava até fazer algum esforço para executar o que planejara e levar a cabo o seu plano. 
9 É muito interessante esta menção de armas logo aqui no começo. Muito oportunamente se oferecem armas ao soldado que vai combater o forte armado e, como um outro Davi em nome do Senhor dos exércitos, há de libertar Israel do antigo opróbrio dos inimigos.