Cookies e Política de Privacidade
O Capuchinhos RS utiliza cookies para personalizar conteúdos e melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade.

Tamanho do Texto:
A+
A-

FRATELLI TUTTI – UMA POLÍTICA PARA ALÉM DA MODERNIDADE

Publicado por Frei Vanildo Luis Zugno | 28/10/2020 - 09:32

FRATELLI TUTTI – UMA POLÍTICA PARA ALÉM DA MODERNIDADE
De forma esquemática, podemos dizer que a história da relação do cristianismo com a
política tem dois grandes marcos. O primeiro, a “virada constantiniana” do séc. IV,
quando o Imperador Constantino se aproximou do cristianismo e as lideranças cristãs
aceitaram esta oportunidade como um modo de viver pacificamente e expandir a fé
cristã por todo o mundo conhecido de então.
Deste ponto inicial e numa série de movimentos muito variados configurou-se o que os
historiadores chamam de cristandade: a união entre o poder político e o poder religioso.
Foi um modus vivendi que se prolongou até o segundo grande evento, tão significativo
quanto o primeiro: a Revolução Francesa e, nela, a separação entre Igreja e Estado.
Separação traumática, consequência da ruptura de um laço profundo e sólido que se
havia constituído ao longo dos séculos.
No período posterior à Revolução Francesa, para alguns, ser católico era ser contra a
democracia, ser contra a soberania popular e negar os direitos humanos. Um modo de
pensar que foi a doutrina oficial da Igreja durante o séc. XIX e só começou a mudar,
lentamente, com o avanço da Doutrina Social da Igreja. O Vaticano II veio sepultar o
sonho da volta das monarquias católicas e da união entre o trono e o altar. Sempre há
alguns, claro, que sonham com esse passado. São os bufões da história cujas posturas
caricaturais nem risos mais fazem despertar.
O fato é que o ideal iluminista da “liberdade, igualdade e fraternidade” se impôs como
parâmetro político. Da diferente articulação dos três elementos surgiram variados
modelos políticos. Por um lado, tivemos as sociedades que privilegiaram a liberdade e
deixaram em segundo plano a igualdade. O indivíduo como sujeito político e a livre
iniciativa econômica se tornaram os grandes valores neste modelo. Do outro lado, as
sociedades que colocaram a igualdade no centro e deixaram a liberdade em segundo
plano. A coletividade como sujeito político e o planejamento estatal tiveram mais
importância neste modelo.
Os dois modelos tiveram seus êxitos e seus limites. Processos criativos houve em ambos
os lados. Assim como em ambos os lados houve exacerbações que culminaram em
individualismos excludentes ou regimes totalitários.
Para dar um passo adiante e sanar a crise que acossa a humanidade, o Papa Francisco

propõe que resgatemos o terceiro elemento: a fraternidade. Ela ficou na sombra tanto no
modelo liberal como nos projetos socialistas reais. Mas o que seria um projeto político
baseado na fraternidade? Simples: pensar a vida em sociedade não apenas como um
pacto entre sócios. O pacto é importante e não pode ser negado. É a partir dele que se
formam as democracias. Mas é preciso ir além. É preciso incorporar na lógica política
aqueles e aquelas que sequer tem condições para participar de um pacto social.
É preciso incorporar no fazer político a categoria de “próximo”, ou seja, incluir como
sujeitos os grupos sociais e as nações que hoje jazem à beira do caminho da
humanidade. É preciso acolher e colocar no centro da ação política os clamores que hoje
não são ouvidos. No interno dos países, estados e cidades, escutar os fracos da
sociedade: minorias sociais, étnicas, sexuais, de gênero, idade, condição sanitária... Na
política internacional, as nações que, de tão empobrecidas, sequer contam no jogo
político e econômico mundial. E o grande próximo e esquecido de quase todos os
projetos políticos: a criação, tanto em seus seres particulares como nos grandes biomas.
Nas democracias, o poder emana das maiorias. Essa é a virtude da política moderna.
Mas é também o seu defeito. Para superá-lo, não se anda para trás. É preciso radicalizar
a democracia incluindo nela as vozes das minorias. Só assim liberdade e igualdade
chegarão ao justo equilíbrio, pois cada um será considerado na igual dignidade a partir
daquilo que o faz diferente de todos os outros. Teremos então uma sociedade fraterna
para todos e todas.
Em seus encontros com os Movimentos Populares e na Laudato Sì, o Papa Francisco
deu o exemplo deste novo jeito de fazer política. É nessa direção que os cristãos são
convidados a impulsionar o jogo político. Não para trás, para a Idade Média.
Caminhamos para o futuro, para além da modernidade.

Sobre o autor
Frei Vanildo Luis Zugno

Frei Capuchinho da Província Sagrado Coração de Jesus - Rio Grande do Sul. É graduado em Filosofia (UCPel - Universidade Católica de Pelotas, RS) e em Teologia (ESTEF - Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, Porto Alegre, RS). É mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon - França) e doutor na mesma área pela EST, de São Leopoldo - RS. É professor de Teologia na ESTEF e na UNILASALLE, em Canoas - RS. 

Blog pessoal, onde é possível encontrar mais textos de sua autoria: http://freivanildo.blogspot.com/