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Fratelli Tutti: as religiões e a paz

Publicado por Frei Vanildo Luis Zugno | 07/12/2020 - 05:50

Fratelli Tutti: as religiões e a paz

Nos livros de História, tanto nos utilizados no Ensino Médio como nos Ensino Superior,
frequentemente encontramos referências a “guerras religiosas”. No Ocidente, os
exemplos clássicos são as Cruzadas e as guerras que se sucederam às reformas
religiosas na Europa nos sécs. XVI e XVII. Ainda no séc. XX, há conflitos que são
apresentados como religiosos. É o caso da Irlanda do Norte, da guerra civil Iugoslava,
do Kosovo, da infindável batalha entre o Estado de Israel e os palestinos, do
Afeganistão, Paquistão, Chechênia, Nagorno-Karabakh...
Se olhamos a fundo e saímos da platitude superficial da informação enviesada e
interesseira, vemos que a religião, em todos estes casos e em tantos outros, é o fator
menos importante. Mais: em todos eles, a religião é utilizada como um subterfúgio para
acobertar outros interesses e manipular os que sofrem as consequências da violência da
qual são atores e vítimas. Nenhum povo entra em conflito com outro por causa da fé.
São os interesses econômicos e políticos que, manipulando o sentimento religioso,
convencem as pessoas de que Deus quer a guerra. E, como a religião constitui o mais
profundo das identidades culturais e nacionais, muitos são enganados por falsos líderes
que manipulam a fé e a religião segundo interesses escusos.
Na verdade – e é nisso que o Papa Francisco insiste no último capítulo da Fratelli Tutti
– os conflitos surgem quando se coloca outra coisa no lugar de Deus. A guerra brota
quando o Absoluto de Deus – seja qual a forma que se lhe dê em cada religião – é
substituído por um outro absoluto criado pelo ser humano. Pode ser o mercado, o
capital, a propriedade privada, o estado, a nação, a classe, a raça, uma ideologia
qualquer. Quando algo criado pelo ser humano é alçado à condição divina, temos aí uma
idolatria. E todo ídolo exige o sacrifício de humanos para continuar a exercer sua
fascinação necrófila e apavorante sobre seus adoradores. E a guerra é a forma mais cruel
de sacrificar pessoas para defender interesses que em nada lhe dizem respeito.
As religiões cumprem sua função quando se empenham em afirmar, na sua prática
cultual, a transcendência de Deus e a salvaguardar, no seu compromisso ético e político,
a face de Deus expressa nos rostos de cada pessoa humana, creia ela em Deus ou não.
No judaísmo e no cristianismo, isso está presente de forma sintética quando afirmamos
que o maior mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si
mesmo. As outras religiões, com outras palavras e outras expressões, afirmam essa

mesma verdade que brota do fundo de todo o coração humano.
Dialogar a partir deste princípio fundamental torna a convivência religiosa possível e
abre caminhos para a prática solidária dos homens e mulheres de fé com toda a
humanidade e as outras criaturas.
Na fé no Deus vivo e verdadeiro, criador e cuidador de todos os seres humanos e todas
as criaturas, está o fundamento para a fraternidade universal e a amizade social.

Sobre o autor
Frei Vanildo Luis Zugno

Frei Capuchinho da Província Sagrado Coração de Jesus - Rio Grande do Sul. É graduado em Filosofia (UCPel - Universidade Católica de Pelotas, RS) e em Teologia (ESTEF - Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, Porto Alegre, RS). É mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon - França) e doutor na mesma área pela EST, de São Leopoldo - RS. É professor de Teologia na ESTEF e na UNILASALLE, em Canoas - RS. 

Blog pessoal, onde é possível encontrar mais textos de sua autoria: http://freivanildo.blogspot.com/