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No RS, freis completam 25 anos de presença junto aos Assentamentos

12/03/2020 - 10h00
A Comunidade Itinerante Pe. Josimo, no dia 11 de março de 2020, celebrou bodas de prata de sua atuação junto aos assentamentos. O Capuchinho, frei Wilson Zanatta fala um pouco sobre esta trajetória.
Confira o relato do Frei Wilson Zanata OFMCap, acerca dos 25 anos da Comunidade Itinerante Padre Josimo, cuja atuação está intimamente ligada aos setores populares da igreja e à luta social dos povos, com particular atenção à questão agrária e ao campesinato.
 
"E já se passaram 25 anos...
No dia 10 de março de 1995 um grupo de freis pertencentes à Ordem dos Frades Menores (OFM) e à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMCap.), ambos do Rio Grande do Sul, formam a Comunidade Itinerante denominada Padre Josimo, em homenagem ao Padre Josimo Tavares: negro, poeta, coordenador da CPT da Diocese de Tocantinópolis, TO, assassinado no dia 10 de maio de 1986. A comunidade de inserção estabeleceu-se no assentamento Segredo Farroupilha, município de Encruzilhada do Sul, distante 18 km da cidade, e distante 170 km da capital, Porto Alegre.
 
Tendo o propósito de estar mais perto do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, as duas províncias gaúchas (dos Menores e dos Capuchinhos) decidiram, em Capítulo Provincial, fazer tal opção. A comunidade foi recebida na Diocese de Santa Cruz do Sul pelo Bispo Diocesano, Dom Sinésio Bohon. Para esta missão foram designados dois freis de cada província: os freis franciscanos Sergio Görgem e Flavio Vivian, e os freis capuchinhos Laudino Bertoldo e Wilson Zanatta.
 
Através da comunidade inserida, a Igreja optou por estar mais próxima desta seara de trabalho. Esta data de posse da comunidade foi celebrada com 113 famílias assentadas, lideranças do movimento, apoiadores da cidade de Encruzilhada, do pároco da Paróquia Santa Bárbara, diversos padres diocesanos, freis e, os provinciais das duas Ordens religiosas envolvidas,  bem como o bispo da diocese. Foi uma data significativa pela aprendizado obtido durante todo este período de 25 anos.
 
Primeira etapa: 1995-1998
A comunidade de inserção permaneceu, durante cinco anos, no Assentamento Segredo Farroupilha. Foi um tempo de entrosamento com os assentados através de celebrações e trabalhos práticos nas famílias.  Serviços que consistiam em ajudar no roçado, limpeza de lavouras, colheitas, construções de escolas, trabalho de fitoterapia e acompanhamento na organicidade do  movimento. 
 
A vida acontecia entre dois olhares muito interessantes. O olhar dos freis em relação à vida e luta dos assentados e o olhar deles em relação à vida dos freis. O entrosamento aconteceu de forma espontânea, mas com imenso aprendizado por parte da comunidade dos freis, cremos possível também por parte das famílias.
 
O assentamento formado de 113 famílias provenientes de 50 municípios com as mais variadas etnias: Italianos, Alemães, Negros, Caboclos, Índios, Poloneses. Constatava-se a capacidade de discussão e entendimento nas decisões, fruto do período de formação e conscientização que acontece nos Acampamentos. A consciência revelava a capacidade de sonhar por um futuro melhor para a família, mas como se ouvia muitas vezes dizer, ‘sonhando e lutando  para que os filhos não sofram o que nós sofremos’,  ‘para que possam ter uma vida digna’.
 
A medida que os freis se inseriam na vida dos assentados, foram crescendo os compromissos com o MST. Passam a participar das ações mais concretas da organicidade, envolvendo-nos com marchas, protestos, ocupações, sempre com o intuito de levar uma luta pacifica, evitando conflitos e mortes. 
 
Neste período de Encruzilhada do Sul, em 1996, pela ocasião da grande estiagem, surgiram acampamentos dos camponeses em Sarandi, Sananduva e na própria Encruzilhada do Sul, reivindicando do governo estadual e federal um financiamento especial para superar os estragos da falta de chuva. Esta luta  proporcionou o surgimento do MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) com a colaboração  da comunidade dos freis.
 
Segunda etapa: 1999-2005
A partir de junho de 1999 a Comunidade Pe. Josimo foi transferida para o município de Tupanciretã, centro do Rio Grande do Sul, na então Diocese de Santa Maria (hoje arquidiocese). A comunidade foi recebida pelo saudoso bispo, dom Ivo Lorscheiter. Basicamente foram dois motivos para a comunidade mudar-se para o centro do Estado: (1) o acompanhamento de um assentamento grande e recém instalado, bem como a existência de 18 assentamentos no municípios e outros tantos nos munícipios vizinhos; (2) a necessidade de acompanhamento do MPA que estava em processo de estruturação no Rio Grande do Sul e já se expandindo para outros estados.O local facilitava para o acompanhamento principalmente no RS.
 
Nesta segunda etapa os compromissos com os movimentos sociais se tornaram mais fortes, a existência de muitos acampamentos pelo estado, a organização da juventude, acompanhamento à CPT, Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), quilombolas e indígenas. 
 
Neste período também um membro da comunidade, frei Sérgio, envolve-se com o Poder Legislativo do RS, assumindo o mandato como Deputado Estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
 
Terceira etapa: 2006-dias atuais
A partir de fevereiro de 2006 a comunidade mudou-se para o município de Hulha Negra, no sul do RS. Instalando-se com a construção de uma casa de permacultura, modelo que talvez demonstre um pouco mais a preocupação e consciência com o meio ambiente. Em Hulha Negra, Diocese de Bagé, hoje coordenada pelo bispo capuchinho Dom Frei Cleonir Paulo Dalbosco, a Comunidade Pe. Josimo assumiu os serviços pastorais de 40 comunidades eclesiais pertencentes a 56 assentamentos, formados desde 1989, em três municípios próximos (Hulha Negra, Candiota e Aceguá), totalizando quase duas mil famílias assentadas em um território de 57 mil hectares.
 
Neste período, um pouco mais longo, a comunidade vem acompanhando os movimentos sociais com uma ênfase maior na região por causa das necessidades decorrentes da ‘fronteira’. As distâncias, a precariedade das estradas e o abando das estruturas estatais torna a vida sofrida. Embora as dificuldades sejam imensas, as famílias assentadas conseguiram dar um salto de qualidade na economia, na vida social, estruturando-se com o básico de uma família camponesa.  
 
À medida que o tempo passa, as tarefas tornam-se maiores e a necessidade faz despertar possibilidades de avanços. A comunidade assumiu  através do Instituto Cultural Padre Josimo, a partir de 2012, o plantio de dois milhões de árvores nativas em parceria com a Usina de Energia a Carvão e os camponeses da Reforma Agrária. Com isso foi designado a compensação social na compra de diversos produtos que as famílias precisam (quintal de frutas, sementes, pintos caipiras, arame para cercas, palanques, tela para hortas etc...).
 
Devido à necessidade e interesse das comunidades foi resgatado a medicina alternativa na confecção de material escrito e a realização de cursos de formação com teoria e práticas. Cursos que se estendem aos movimentos sociais em diversos locais do Estado e Dioceses.
 
O resgate de sementes crioulas com a formação da casa de sementes, com plantio de milho, feijão, linhaça, soja convencional... A estiagem na região que acontece em média a cada cinco anos, despertou para a construção de 300 cisternas e a recuperação de 200 fontes de água, para as famílias poder resistir estas crises de falta de água, como vem ocorrendo nos dias de hoje.
 
As necessidades são proporcionais aos clamores dos movimentos sociais desprezados e abandonados cada vez mais, por um Estado comprometido com quem causa sofrimento. Talvez neste ótica é que o Papa Francisco nos pede para sermos uma ‘igreja em saída,’ tanto no campo como na cidade, levando a todos o Evangelho de Jesus Cristo."
 
Fonte base desta notícia: site do Instituto Cultural Padre Josimo 

 

Fonte: Capuchinhos do Brasil /CCB

Por Frei Cristian Martins Almeida (Equipe de Assessoria de Mídias - Capuchinhos RS)

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