Tamanho do Texto:
A+
A-

Sede de Deus

Publicado por Frei Mauricio Solfa | 12/09/2018 - 12:08

Há muita sede de Deus, mas também muita água poluída. Não há nada mais danoso para o ser humano do que uma imagem distorcida de Deus, uma espiritualidade fundamentalista. Parece-me que quanto mais sede se tem, menos discernimento e paciência para escolher as fontes puras e cristalinas. Na pressa e no desespero bebe-se em poças e mananciais poluídos.

O tempo que estamos vivendo é chamado de idade secularizada, idade sem oração, sem Deus. Com a modernidade perdemos muito o sentido do sagrado. Vivemos fortemente época da dessacralização do tempo, da natureza e da vida.

Décadas atrás, quando alguém, ou geralmente uma família viajava, pois as viagens eram feitas com a família, o primeiro lugar a se visitar em uma cidade era a Igreja. Mesmo que se estivesse em viagem, participava-se da missa. Hoje, muitas pessoas se dão o direito de tirar férias, também de Deus. Dias santos são feriados prolongados. Em uma viagem, a Igreja, é o último lugar a ser visitado, com algumas exceções.  Hoje, não se venera o sagrado, mas fotografa-o. Não se faz peregrinação, mas turismo religioso.

O domingo era de fato o Dia do Senhor, onde a missa era obrigatoriedade, necessidade sentida. Domingo sem missa era semana sem graça. Hoje, a missa é apenas mais uma opção entre tantas do domingo.

A secularização, que significa ênfase no atual, no agora e no mundo sensível e científico, teve alguns efeitos fantásticos. Trouxe-nos tecnologia e ciência. No campo religioso nos libertou de superstições para vivermos uma fé mais madura.

Um dos efeitos negativos da secularização foi uma profunda incapacidade de percebermos a presença amorosa de Deus entre nós. Deus tornou-se comércio; nós o procuramos pensando no que teremos de retorno. Religião é conveniência.

Em meio a tudo isso, percebemos, também, a volta do sagrado. A religiosidade está presente na linguagem econômica, nas liturgias do comércio e assim por diante.

O ser humano tem sede de Deus. Por mais que se tente sufocar a religiosidade, ela sempre encontra seus meios para vir à tona. O ser humano é um ser espiritual; e negar isso, não cuidar disso leva-o a adoecer.

Muitas pessoas, para saciarem a sede de Deus, não usam critério algum. Qualquer oferta de espiritualidade ou religiosidade as envolve, muitas vezes as manipulam e alienam.

Hoje existe um fundamentalismo religioso muito forte. Isso em todas as religiões e denominações, inclusive na Igreja Católica. Percebemos a volta do sagrado e, também a volta do demônio. Muitas pessoas preferem colocar a culpa no demônio, por suas opções de vida, por suas decisões. As psicólogas e os psicólogos que o digam. Quantos casos são acompanhados nesse sentido. Casos difíceis de serem trabalhados. Um amigo psiquiatra partilhou comigo que um paciente já havia feito exorcismo três vezes, e que ele, o psiquiatra, precisava de alguma literatura para saber sobre as orientações da Igreja a respeito disso.

Da mesma forma que um remédio errado faz mal, uma orientação religiosa distorcida também faz muito mal.

 

Sobre o autor
Frei Mauricio Solfa

Frei Mauricio Aparecido Solfa, nasceu em Rondon-Pr, em 1977. Formado em filosofia e teologia. Fez o curso de verao sobre Espiritualidade Franciscana oferecido pelo Centro Franciscano de Espiritualidade de Piracicaba-SP. Trabalhou na equipe missionaria dos freis Capuchinhos do Parana e Santa Catarina. Desempenhou a funcao de vigario paroquial na paroquia das Merces-Curitiba. Atualmente e vigario paroquial em Umuarama na paroquia Sao Francisco de Assis.