Tamanho do Texto:
A+
A-

FALAR AINDA DE CONTEMPLAÇÃO?

Publicado por Frei Marcus Vinicius de Souza Nunes | 07/10/2018 - 15:21

Um tema com que temos de nos haver recorrentemente é sobre o caráter misto de nossa Ordem. Não apenas a disposição jurídica de não sermos uma ordem de clérigos, como quer a Cúria Romana, mas uma ordem de irmãos, com clérigos e leigos. Além disto, que também compõe um importante elemento carismático nosso (a fraternidade) temos de dar conta do elemento misto de nossa espiritualidade: somos ao mesmo tempo uma ordem ativa e contemplativa (Const. 46,5).

            O que normalmente gera confusão é o modo que compreendemos o contemplativo. Quase que automaticamente somos levados, por tradição ou má compreensão, a pensar na vida de clausura estrita. Às vezes pensamos apenas em um modo de oração entre outros, uma via mais eminente, culminante por certo, mas restrito ao campo da expressão oracional. Entendemos como apenas espiritualidade.

            Estas são noções residuais. São resquícios de uma compreensão de mundo dualista, que isola o desenvolvimento espiritual da vida concreta, do dia a dia. Esta dualidade jamais fez parte de nosso carisma, mas sempre fomos tentados por ela. Temos de compreender a espiritualidade a partir de uma visão integradora, unitária. Não se trata apenas do aspecto oracional, do modo como rezamos, mas de como nossa vida se integra em um projeto, no nosso caso, o projeto do Evangelho vivido em uma maneira franciscano-capuchinha.

            Contemplar não é um modo de rezar, ainda que o digamos o mais sublime, o unitivo. Contempla quem tendo feito uma experiência de encontro com o Senhor olha o mundo, criação sua, a partir de sua perspectiva. Contempla quem olha para as coisas do dia a dia em profundidade. Contempla quem age no mundo para transformá-lo de acordo com o projeto do Evangelho. Contempla quem acolhe o irmão como ele é. Contempla quem vive a fraternidade e dedica seu tempo aos trabalhos pastorais, à acolhida do Povo de Deus, aos serviços da Ordem, à pregação, ao estudo, ao ensino, à formação, ao cuidado de nossas casas. Talvez por ser tão simples é que a contemplação é algo tão difícil para nós. Contemplar é simplesmente reconhecer o vínculo íntimo que liga todas às coisas ao seu Criador e Senhor e perceber como Ele age em todas elas.

            Entretanto, temos de nos precaver de não tomar essa compreensão integradora como uma justificativa ideologizada para vivermos tranquilamente o ativismo nosso de cada dia sem que ninguém nos censure. Ativismo não é e nunca será contemplação. Ativismo é fugir dos irmãos, fugir da vida espiritual e, o pior de tudo, fugir de um encontro consigo mesmo que pode salvar, curar, libertar. Mas, quem contempla, quem vê o mundo sob a perspectiva de Deus, tem seu coração aquecido para a busca do Absoluto. Então torna-se uma necessidade, uma sede insaciável, estar sozinho com Deus na cela do coração. Sem sair do claustro do mundo, encontramo-nos com o Amado na profundidade de nós mesmos. Aí podemos dizer que a relação se inverte para se completar.

            Então, age perfeitamente quem senta-se em silêncio para tentar ouvir a voz de Deus. Faz perfeita ação apostólica quem dedica horas do seu dia para simplesmente permanecer quieto esperando a brisa suave. Torna-se verdadeiro pregador quem simplesmente lê a Palavra, medita, estuda, perscruta com coração ardente. Torna-se verdadeiro servidor dos irmãos quem é capaz de deixar todas as atividades para ver a lâmpada que arde no tabernáculo. Acolhe o Povo de Deus quem é capaz de fugir da cidade para dedicar dias ao seu retiro, à meditação, à cura das suas feridas. Enfim, torna-se verdadeiro apóstolo quem vigia com o Senhor.

            Assim pensando e agindo poderemos ser farol para iluminar na escuridão da noite. É um mundo divido, fragmentado, desorientado o que vivemos. Precisamos ser, mais que qualquer outra coisa, mestres de oração e contemplação, homens que buscam o Absoluto na pequenez do cotidiano e que se tornam companheiros de caminhada de muitos outros em sua busca.

            As coisas importantes precisam ser repetidas, para gravarmos bem em nosso coração. Quanto mais simples, mais desafiadoras. Por isso, precisamos falar sim ainda de contemplação até o dia em que tivermos realizado em nós (e não apenas compreendido) essa capacidade de escuta e esse olhar profundo. É uma tarefa para a Eternidade...

                       

Sobre o autor
Frei Marcus Vinicius de Souza Nunes