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Deus tem corpo

Publicado por Frei Vanildo Luis Zugno | 31/05/2021 - 08:29

Deus tem corpo

Dito assim, em simples língua portuguesa, muitos podem achar a expressão estranha:
Deus tem corpo. Já dito em latim, solenizado em uma festa de primeira categoria
segundo a liturgia da Igreja Católica Romana, parece mais normal: Corpus Christi, ou,
de forma ainda mais nobre, Corpus Domini. Pois sim: ambas as expressões latinas
querem dizer exatamente isso: Deus tem um corpo. Todo cristão afirma que o Cristo de
Deus se fez humano no corpo do filho do carpinteiro nazareno. Negar a realidade
corporal de Deus em Jesus de Nazaré foi, desde o início do cristianismo, considerado
uma heresia, ou seja, uma meia verdade, um erro, um perigo para a fé cristã.
Um dos nomes dados a essa forma herética de cristianismo foi “docetismo”. A
expressão vem do verbo grego dokeò, que significa “aparentar”, “fingir”. Tendo seu
fundamento filosófico no gnosticismo, que considerava impossível a presença do divino
no mundo material, na corporeidade humana, os docetistas afirmavam que só
aparentemente o Cristo de Deus tinha assumido a corporeidade humana e que a
encarnação era um fingimento, uma encenação, apenas para que os humanos pudessem
compreender a mensagem de Deus e, nela, a insignificância do mundo material.
Tal heresia foi condenada pela Igreja. Mas a tentação da fuga do mundo e da realidade
humana ficou latente dentro do cristianismo e, vez ou outra, assoma aqui ou acolá. Tal
aconteceu na Idade Média, quando a introdução na teologia ocidental do pensamento de
Aristóteles fez emergir mais uma vez a tentação gnóstica da racionalização da fé. A
nova corrente teológica trazia embutida a afirmação de que a salvação pode ser
alcançada pela razão e não pela prática e pela devoção.
Contra tal tendência se levantou a piedade popular que encontrou uma de suas
expressões na adoração da Eucaristia. Santa Juliana de Liège foi a inspiradora desta
devoção que logo se espalhou por toda Europa e foi oficialmente acolhida pelo Papa
Urbano IV em 1264. Contraditoriamente, num tempo em que a maioria dos fieis não
tinha acesso à Eucaristia, ela se tornou o símbolo da resistência da fé popular no
humano em Cristo, contra a elitização e intelectualização da teologia e da liturgia.
Impedido de comungar, o povo simples aclama o Corpo de Cristo em procissões nas
ruas.
Nas controvérsias das reformas da Igreja que eclodem no séc. XVI, a procissão de
Corpus Christi, já oficialmente assumida pela Igreja, se transforma em manifestação
antiprotestante. Desconhecendo a diferença entre a presença real afirmada por Lutero e
a presença simbólica defendida por Calvino, todos os não católicos são identificados
como inimigos da Eucaristia. Depois da Revolução Francesa, Corpus Christi também se
torna estandarte da anti modernidade. A presença de Cristo na Eucaristia é um milagre
que a ciência e a razão, pilares do espírito moderno, não podem explicar.

A partir das reformas preconizadas pelo Vaticano, a solenidade de Corpus Christi
passou a mudar de tom e caminha cada vez mais em direção ao seu espírito original. As
suntuosas procissões apologéticas e apoteóticas vão cedendo lugar a manifestações de
solidariedade para com os corpos de Cristo que hoje são desprezados em sua
humanidade. As bandas tonitruantes e as nuvens de incenso cedem lugar a tapetes de
roupas e alimentos que são encaminhados aos que passam frio, fome, sede, estão
doentes ou presos. Afinal, como diz o próprio Jesus no Evangelho, é no corpo dos
humilhados da sociedade que ele mora. E, cada vez que damos abrigo, comida e água a
quem precisa e consolamos com nossa presença quem vive a solidão da doença ou da
prisão, é a Ele que o estamos fazendo.
Muitos têm dificuldade em aceitar essa forma verdadeiramente original e tradicional de
celebrar o Corpo de Cristo que estamos redescobrindo. Como lembra o Papa Francisco
na Gaudete et Exsultate, o gnosticismo ainda continua presente “de forma sutil” e “é
uma das piores ideologias”, pois é “incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos
outros”. E mais: os neognósticos, “ao desencarnar o mistério, em última análise,
preferem um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo” (cf. GE 37-
40).
Voltar ao Cristo encarnado no humano de Jesus e resgatar o humano no Cristo presente
em cada pessoa destituída de sua dignidade. Esse é o caminho para podermos celebrar
com toda solenidade a presença real de Cristo entre nós na Eucaristia e em cada pessoa
que precisa da presença consoladora de Deus e de um irmão e de uma irmã.

Sobre o autor
Frei Vanildo Luis Zugno

Frei Capuchinho da Província Sagrado Coração de Jesus - Rio Grande do Sul. É graduado em Filosofia (UCPel - Universidade Católica de Pelotas, RS) e em Teologia (ESTEF - Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, Porto Alegre, RS). É mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon - França) e doutor na mesma área pela EST, de São Leopoldo - RS. É professor de Teologia na ESTEF e na UNILASALLE, em Canoas - RS. 

Blog pessoal, onde é possível encontrar mais textos de sua autoria: http://freivanildo.blogspot.com/