Frei Roberto Von Zuben
Frei Roberto von Zuben nasceu em Vinhedo (Rocinha), aos 11 de novembro de 1919. Seu nome de batismo e civil era Luís Gonzaga Bernardino von Zuben. Era filho de Luís von Zuben e Maria Sigrist. Foi batizado pelo Pe. Alberto Motz na igreja Sant’Ana, Vinhedo, aos 16 de novembro de 1919 e crismado por Dom Francisco de Campos Barreto, Arcebispo de Campinas, em Jaguari, aos 24 de fevereiro de 1923. Fez a Primeira Eucaristia na igreja Nossa Senhora Auxiliadora de Campinas no dia 29 de junho de 1929. Cursou os primeiros estudos em Campinas. Entrou para o Seminário São Fidélis de Piracicaba, aos 26 de fevereiro de 1932.
Noviciado e Profissão
Vestiu o hábito franciscano capuchinho, iniciando o noviciado no convento Sagrado Coração de Jesus, Piracicaba, aos 3 de fevereiro de 1937. Foi seu Mestre Frei Felicíssimo de Prada. Fez a profissão temporária, perante Frei Eliseu de Cavêdine, Provincial de Trento que visitava a Missão transformada em Custódia Provincial, aos 4 de fevereiro de 1938. Emitiu a profissão perpétua perante Frei Plácido Bruschetta no convento São José, Mococa, aos 5 de agosto de 1941.
Filosofia, Teologia e Ordenação
Estudou Filosofia em Mococa, de 1938 a 1940 e Teologia em Mococa e São Paulo, convento Imaculada Conceição, nos anos 1941 a 1944. Em Mococa, de 10 a 13 de junho de 1942, recebeu a Primeira Tonsura e as Ordens Menores conferidas por Dom Manoel Silveira Delboux, Arcebispo de Ribeirão Preto. Em Botucatu, foi ordenado Subdiácono por Dom Frei Luís Maria de Santana aos 18 de setembro de 1943 e Diácono aos 7 de dezembro do mesmo ano. Recebeu a Ordenação Sacerdotal pela imposição das mãos de Dom Frei Luís Maria de Santana, em Botucatu, na Catedral, no dia 8 de dezembro de 1943. Concluiu os estudos em novembro de 1944.
Ministério sacerdotal
Frei Roberto exerceu o ministério sacerdotal em poucas fraternidades da Província: Piracicaba, Botucatu e Mococa.
Professor e Reitor
Concluídos os estudos, em dezembro de 1944 foi transferido para o Seminário São Fidélis de Piracicaba, como professor. Três anos depois, de 1948 a 1950, ocupou o cargo de Reitor do mesmo Seminário.
Mococa e Botucatu
No convento São José de Mococa, Frei Roberto foi professor e Diretor dos Estudantes de Filosofia nos anos 1951 e 1952. Em janeiro de 1954 recebeu transferência para Botucatu, Santuário Nossa Senhora de Lourdes, como Vice-Guardião e encarregado das vocações.
Seminário e convento São José de Mococa
Depois de um ano no convento de Botucatu, com a transferência dos dois últimos anos de seminário para Mococa, em janeiro de 1955, Frei Roberto foi transferido para lecionar no seminário e convento São José de Mococa. Em janeiro de 1957 foi nomeado Vice-Diretor dos Estudantes. Na disposição das famílias religiosas para o triênio 1960 a 1962, Frei Roberto ocupou o cargo de Guardião do convento São José de Mococa, Diretor da OFS (Ordem Franciscana Secular) e professor. Em dezembro de 1960, renunciou o cargo por motivos de saúde. Continuou em Mococa como professor até dezembro de 1962, sendo transferido para o convento Sagrado Coração de Jesus de Piracicaba.
Cego 35 anos
No segundo semestre de 1961 Frei Roberto parou de lecionar. Já há quatro anos que celebrava unicamente a missa votiva de Nossa Senhora por sabê-la de cor. Não rezava o breviário e estava dispensado de comparecer ao coro para esta oração. Tudo o que lia: jornais, revistas, livros de estudo para preparar as aulas, somente conseguia ler, servindo-se de uma luneta.
Para ficar mais perto de Campinas e São Paulo, onde estão os melhores recursos médicos, em dezembro de 1962 foi transferido para o convento Sagrado Coração de Jesus de Piracicaba. Aí permaneceu até dezembro de 1965, quando recebeu transferência para o Seminário São Fidélis, na mesma cidade, para ser auxiliar do Diretor Espiritual. Em janeiro de 1970 retornou ao convento Sagrado Coração de Jesus, onde permaneceu até janeiro de 1978, sendo transferido para o convento Nossa Senhora de Lourdes de Botucatu, como confessor e pregador. Nove anos depois, em janeiro de 1987, recebeu a última transferência para o Seminário São Fidélis de Piracicaba, dedicando-se ao atendimento pastoral até o dia em que morreu cego, aos 9 de março de 1996
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Cristo ressuscitou, aleluia!
Quando Frei Roberto faleceu, Frei Sermo Dorizotto, então Ministro Provincial, transmitiu a seguinte mensagem de Páscoa:
“Perdemos no dia 9 de março, após receber a Unção dos Enfermos, nosso coirmão Frei Roberto. Sua vida, conhecida de todos, é fonte de nossa gratidão a Deus na celebração pascal deste ano. Sua maturidade humana, psicológica e espiritual atraia continuamente jovens e adultos, que o procuravam como conselheiro e diretor espiritual.
Frei Roberto aprendeu a ouvir desenvolvendo excelentemente o dom do silêncio. Suas palavras eram sábias, apenas as necessárias. Amava profundamente os antigos pensadores gregos, tendo, de Zenão de Eléia, vivido a máxima do muito ouvir e do pouco falar. Em seus últimos anos experimentou a cruz da cegueira. As trevas não o abateram por muito tempo. Criou uma visão crítica, arguta da natureza humana. Seus olhos embaçados, privados da luz do sol, tornaram-se espirituais, inundados pelo Sol da Justiça.
Feliz Páscoa, Frei Roberto! Feliz Páscoa, irmãos todos, jovens, idosos, sãos e doentes. Proclamemos as excelências daquele que chamou nosso coirmão das trevas para a sua luz maravilhosa, (cfr. 1Pd 2,9)”.
(Cf. “Regra e Vida” nº 100, pag. 114).
Éramos sete...
Frei José Antônio Leonel Vieira, colega de turma de Frei Roberto, assim refletiu escrevendo:
“Frei Roberto morreu e morreu cego... O quinto de nossa turma de 7. Turminha boa essa. Unida, estudiosa, inteligente e promissora. Todos os cinco que morreram deixaram as marcas de sua passagem.
Frei Roberto era talvez o mais inteligente, sereno, equilibrado, crítico, discreto e sagaz. Num dia trágico caiu sobre seus olhos a noite sem fim. Nunca mais viu as belezas do mundo e das criaturas, ele que era o mais maduro, livre e tranqüilo, sabia saboreá-las sem legalismo, sem escrúpulos e sem orgulho. Eu jamais consegui isso.
Imagino a luta feroz que pulou em suas entranhas quando ficou cego. Os traços dessa batalha gigante apareceram mais tarde no abatimento do rosto e da alma. Porém, a graça de Deus venceu e surgiu o Roberto sereno e transfigurado. Parecia ver... tal a expressão de seu rosto.
Às vezes, eu ficava escondido no corredor vendo-o andar. Não tinha coragem de incomodá-lo. Era a imagem do ressuscitado que não queria ser tocado. O julgar de Deus o queimava por dentro. Eu olhava-o, olhava-o em silêncio e invejava sua grandeza. Grandeza essa, parto doloroso, onde morreram seus olhos, mas, nasceu a Luz.
Roberto, amigo, companheiro e irmão, roga por mim que ainda fiquei. Fiquei lutando pela conversão até que os olhos da fé iluminem meu caminho para o Pai.
Até logo, Roberto!”
(Cf. “Regra e Vida” nº 100, pag. 113).
Professor no curso clássico
Frei Roberto foi excelente professor no curso clássico do Seminário São José de Mococa. Lecionava Física, Química, Cosmografia, Matemática em todas as suas partes: aritmética, álgebra e geometria. Lecionava também Introdução á Filosofia. Era profundamente seguro nestas matérias. Comunicava-se com a maior clareza e ensinava com paixão e alma. Para alunos inteligentes que prestavam bem atenção nas explicações, bastavam as aulas para aprender bem as matérias por ele ensinadas.
Amigo dos Estudantes e Seminaristas
A amizade de Frei Roberto para com todos era muito sincera. Com a permissão dos Diretores, gostava de passar horas de recreio com os Estudantes de Filosofia e seminaristas. Todos valorizavam sua presença nas rodas de conversas. Discutia com segurança questões científicas, os avanços do progresso da técnica moderna, problemas da sociedade atual e da Igreja. Suas conversas não só eram agradáveis, mas de grande utilidade científica e espiritual.
Penosa humilhação
A deficiência em 35 anos de cegueira, impôs-lhe penosas humilhações, apesar de seu equilíbrio psicológico e espiritual. Não queria incomodar ninguém, mas dependia muito dos confrades ou das cozinheiras para fazer-lhe o prato, no refeitório. Em cada refeição era preciso informar-lhe sobre cada alimento a ser servido para que pudesse fazer sua escolha. Às vezes derrubava suco na mesa, alimento na roupa ou no chão! A paciência dos coirmãos e das funcionárias não diminuíam seu sofrimento. Também no cuidado com a roupa e limpeza do quarto dependia dos outros. Durante a semana era preciso alguém ler as leituras bíblicas da Liturgia para que ele pudesse fazer as pregações. As procurações por ele assinadas, as escritas em braile contidas na sua pasta de documentação no arquivo da Província provocam grande dor no coração daqueles que tiverem acesso a estes documentos.
“Na esperança da ressurreição”
Frei Roberto faleceu no dia 9 de março de 1996, sábado, ás 20 horas e 40 minutos na Santa Casa de Misericórdia de Piracicaba. O atestado de óbito deu como causa da morte: “Falência Múltiplos órgãos - Infarto Mesentérico - Carcinoma gástrico”. Seu corpo foi velado na capela do Seminário São Fidélis. Dia 10, domingo, às 8 horas, Frei Sermo Dorizotto, Ministro Provincial presidiu a missa exequial. Após a missa seu corpo foi sepultado no Cemitério da Saudade de Piracicaba no Jazigo dos Frades Capuchinhos.
Frei Roberto viveu 76 anos, dos quais, 58 na vida religiosa Franciscana Capuchinha e 52 de ministério sacerdotal. “Creio que meu Redentor vive e o verei com meus próprios olhos”. (Cf. Jó 19, 25,26,27).
Frei Joaquim Dutra Alves, O.F.M. Cap.