Necrologia

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Frei Damião de Grumes

12/12/1854
21/06/1927

Aos 4 de junho de 1897 o Provincial Frei Dionísio de Soraga acompanhado de Frei Rafael de Vallarsa chegava a Piracicaba para a Visita Canônica. Trazia dois novos missionários: Frei Fernando de Seregnano e Boaventura de Aldeno. Entusiasta da Missão, ao voltar para a Província cumpriu promessa feita, enviando para cá mais dois missionários: Frei Damião de Grunes e Frei Vitorino de Malé.

Frei Damião (Bartolomeu Eccli) nasceu aos 21 de dezembro de 1854. Era filho de Leonardo e Madalena Eccli, de Grumes (Grumesio). Vestiu o hábito aos 24 de fevereiro de 1873. Professou solenemente aos 27 de fevereiro de 1877. Foi ordenado aos 14 de julho de 1878.

Com seu companheiro chegou a Piracicaba aos 4 de outubro de 1897 e foi destinado a morar no convento do Largo São Francisco, do qual, com Frei Bernardino de Lavalle, Frei Vicente de São Tiago e Frei José de Cassana, tomaram posse aos 14 de novembro desse mesmo ano. Ali, muito trabalhou, orientando os Terceiros franciscanos na fundação de um pequeno folheto que era distribuído ao final das missas dominicais e que se tornou a revista “ AVE MARIA “. - Já em janeiro de 1900, com Frei Silvério de Rábbi, foi missionar Santa Cruz das Palmeiras e em julho, com Frei Policarpo de Lévico, após uma viagem de trem e cerca de 5 horas a cavalo chega a São José do Paraitinga para uma missão de 15 dias.

Após o São Francisco, Frei Damião vai residir em Taubaté, de onde sai a 21 de setembro de 1903 para ir como vigário conventual em Piracicaba. Nesse ano, a 30 de setembro, com Frei Jerônimo de Vínego, parte para uma grande Missão em Descalvado, pregando na cidade, nos sítios e fazendas dessa paróquia, onde era vigário o inesquecível amigo dos frades Padre Manoel Francisco Rosa. Encontrando o Hospital local em péssimas condições e quase para fechar as portas, Frei Damião lutou muito para ressuscitá-lo e o conseguiu, chamando para lá as Irmãs Franciscanas do Coração de Maria. As missões se prolongaram também por toda a Quaresma encerrando-se a 3 de abril de 1904... Ali deixou fundada a Ordem Terceira com bom número de Irmãos.

De 25 de novembro de 1904 até 16 de dezembro nós o temos em Avaré, pregando missão com seu colega Frei Policarpo de Lévico.

A 7 de janeiro de 1908 tomou posse como guardião em Piracicaba, renunciando a 10 de janeiro de 1909, “por vários incômodos e muito especialmente para sua paz e tranqüilidade de consciência, espontaneamente, voluntariamente e livremente” – como deixou registrado na CRÔNICA daquele convento. Em 1911, novamente com Frei Policarpo, missiona a diocese de Botucatu: Itapeva, Apiaí, Barra do Turvo, Iporanga, Salto do Rio Grande, Ribeira, Morro Agudo, Palmeiras, Capoeiras, Tocos... Igualmente, de 21 de abril a 7 de dezembro de 1913 missionou a diocese de Taubaté percorrendo suas capelas juntamente com Frei Ângelo do Bom Conselho. Durante esses nove meses de missão, o missionário e seu colega reavivaram a fé nessas localidades com breves retornos ao Convento taubateano e com grande proveito para o povo fiel. Posteriormente voltará a essa paróquia, de 16 de fevereiro a agosto de 1914, e prepara (constrói) a casa paroquial em Quiririm.

Aos 25 de agosto inicia missão em Redenção da Serra.

Aos 10 de julho Frei Víctor de Dovena tomou posse como vigário em Quiririm, sendo pouco depois substituído por nosso Frei Damião nesse cargo.

Durante a Guerra 1914-1918, o mal estar e a prevenção contra austríacos e alemães veio perturbar o bom frade, pois no dia 1º de novembro de 1917 o bispo de Taubaté convoca o Guardião Frei Jacinto de Prada e lhe comunica, sem mais, que uma petição de 79 assinaturas de Quiririm pedia a remoção de Frei Damião por ele ser alemão (austríaco), “perigoso e incompatível numa paróquia de ítalo-brasileiros”, em tempo de Guerra.

O bispo não foi cauteloso no pedido precipitado e, para não sujeitar o frade a vexames etc.. encaminhou-o ao guardião solicitando um padre italiano ou brasileiro. Por sua vez o superior não perdeu a ocasião propícia para retirar Frei Damião da paróquia, o que não era nada mal para a Missão. Igualmente decidiu “não ceder padre algum como vigário... e assim livrar-se para sempre daquela paróquia que só servia de estorvo espiritual e material”, como registra o Livro Tombo de Taubaté (1º) – à fl. 40. E no mesmo dia 1º, o povo que se reunia para a festa de Todos os Santos e para Finados, ao saber do que acontecera ficou tão revoltado que queria linchar os poucos culpados e não o fizeram porque se esconderam a tempo. Poucos, por que foram cerca de 5 pessoas que correram a lista, até pagando doces para crianças assinarem, além de pessoas fantasmas. E com isso, povo e bispo ficaram sem a dedicação total do vigário Frei Damião e é tradição que corre lá, que Frei Damião não teria nem um pouco abençoado aquele lugar!! Posteriormente há nova lista pedindo a volta do padre ou de outro, mas os superiores julgaram oportuno não atender por vários motivos.

De 3 a 18 de junho de 1918 Frei Damião, com Frei Leonardo de Campinas, missiona Bias Fortes, sul de Minas, que há 40 anos não tinha Missão e fora escandalizada por um padre que deixara a batina.

Desenvolveu muitos outros trabalhos em várias paróquias de São Paulo. Em Piracicaba, no ano de 1905, reanimou a popular festa do Divino reunindo grande massa popular e reanimando essa tradição interrompida já há dois anos . Fundou varias fraternidades da Ordem Terceira, sendo grande entusiasta da mesma. Quando residia no Largo São Francisco, fundou, com Frei Silvério o jornal “La Luce” aos 7 de dezembro de 1906 e que já a 15 de dezembro passa a denominar-se “La Squilla”. Desempenhou importante tarefa formativa entre a colônia italiana da capital e do interior. Era um semanário rico em assuntos formativos e noticiosos. Foi publicado até princípios dos anos 30.

A ele devemos também a preciosidade das CRÔNICAS do Convento de Piracicaba (1890-1924); do Convento São Francisco em São Paulo( 1897-1909), Relatórios de Missões pregadas por ele e por Frei Ângelo na diocese de Taubaté, nos anos de 1913 e 1914.

Seu trabalho na vinha do Senhor foi “constante, indefeso: missões, pregações, catequeses, administração dos sacramentos, máxime da penitência, visitas aos doentes, encheram seus preciosos dias”, como está escrito em “Anais Franciscanos”, ag.1927 – p. 247).

Suas residências mais prolongadas foram: São Paulo, Piracicaba e Taubaté. Por muitos anos em Piracicaba, aos 10 de setembro foi para São Paulo, onde faleceu a 21 de junho de 1927, às 11 horas. A morte o encontrou em pleno uso de suas faculdades, embora atacado de arteriosclerose.

Frei Damião foi uma jóia de nossa Missão. Amou-a e se dedicou plenamente, em tempo integral, ao serviço de Deus e dos irmãos. Sua memória será eternamente grata para todos.

Frei Mateus Gaspar Lopes

21/04/1911
23/06/1994

De nacionalidade portuguesa

Frei Mateus Gaspar Lopes (Martinho Gaspar Lopes) nasceu em Souto da Carpalhosa, Leiria, Portugal, aos 21 de abril de 1911. Era irmão gêmeo de Frei Jerônimo Gaspar Lopes. Era filho de Antônio Gaspar Lopes e Teresa Soares Lopes. Foi batizado pelo Pe. Manoel Ferreira Geraldo, na igreja de Souto da Carpalhosa, aos 25 de maio de 1911. Foi crismado por Dom Manoel Matos, na mesma igreja, aos 31 de outubro de 1915. Fez a Primeira Eucaristia, recebida das mãos de Dom José da Silva, Bispo de Leiria, na igreja de Mata dos Milagres, em 1919. Cursou os primeiros estudos em Mata dos Milagres. Aos 18 de fevereiro de 1924, com seu irmão gêmeo Frei Jerônimo, entrou para o Seminário São Fidélis, em São Paulo.

Noviciado e Profissão

Vestiu o hábito franciscano capuchinho, no convento Santa Clara, Taubaté, iniciando o noviciado aos 17 de fevereiro de 1929. Foi seu Mestre Frei Ricardo de Denno. Fez a profissão temporária, perante Frei Tiago de Cavêdine, em Taubaté, aos 23 de fevereiro de 1930. Emitiu a profissão perpétua, perante Frei Jacinto de Trieste, visitador da Ordem, em São Paulo, aos 25 de março de 1933.

Filosofia, Teologia e Ordenação

Estudou Filosofia e Teologia no convento Imaculada Conceição de São Paulo nos anos 1930 a 1932; 1933 a 1936. Dom Frei Luís Maria de Santana conferiu-lhe a Primeira Tonsura e as Ordens Menores, de 20 a 21 de agosto de 1933, em São Paulo. Foi ordenado Subdiácono por Dom José Carlos Aguirre, em São Paulo, igreja Nossa Senhora do Carmo, aos 10 de novembro de 1935 e Diácono por Dom José Gaspar de Afonseca e Silva na igreja do Mosteiro São Bento, aos 21 de dezembro de 1935. Recebeu a Ordenação Sacerdotal pela imposição das mãos de Dom Duarte Leopoldo e Silva, Arcebispo de São Paulo, na igreja Santa Ifigênia, funcionando como Catedral provisória, aos 29 de dezembro de 1935. Concluiu os estudos em São Paulo, em novembro de 1936.

Ministério sacerdotal no Estado de São Paulo

Em novembro de 1936, concluídos os estudos, recebeu transferência para Penápolis. Aí foi Diretor da Congregação Mariana. Em novembro de 1937, foi transferido para o Seminário São Fidélis de Piracicaba, como Mestre de Disciplina e Professor.

Em Portugal

Em 1º de fevereiro de 1939, recebeu do Ministro Geral a obediência para deixar São Paulo e partir para Portugal a fim de trabalhar na implantação da Ordem naquele país. Em Portugal, residiu em Serpa, Fafe, Porto, Coimbra, Lisboa, Fátima e Gondomar. No Comissariato de Portugal, organizou e fundou o Seminário sendo o primeiro Reitor; fundou novas Casas Religiosas, sendo o primeiro Guardião em Coimbra, Lisboa e Fátima. Foi o terceiro Comissário da Ordem em Portugal por um triênio. Foi encarregado da continuação das obras das igrejas de Porto, Fátima, da construção da nova igreja e Seminário em Gondomar. Com seu irmão gêmeo Frei Jerônimo, passou a ser pregador missionário.

De volta à Província de São Paulo

Em 1968, com seu irmão gêmeo Frei Jerônimo, regressou à Província de São Paulo e se encarregou da paróquia e da construção do Santuário Nossa Senhora de Fátima, em Sapopemba. Aí foi o primeiro Guardião e pároco da paróquia. Permaneceu em Sapopemba até janeiro de 1978, sendo num triênio, Guardião e pároco, em outro, vigário paroquial e Vice-Superior. Em janeiro de 1978, com seu irmão Frei Jerônimo, foi transferido para Mococa, como Guardião do convento.

Definitivamente em Portugal

O Definitório Geral, aos 2 de fevereiro de 1979, atendeu o pedido e decidiu conceder licença ao Frei Mateus Gaspar Lopes e Frei Jerônimo Gaspar Lopes para se transferirem para a Província Capuchinha Portuguesa enviando-lhes a respectiva “obediência”.

Falecimento

Frei Mateus Gaspar Lopes faleceu no Hospital de Barcelos, Portugal, onde se encontrava enfermo já há vários dias, aos 23 de junho de 1994. Contava 83 anos de idade, 64 de Vida Religiosa na Ordem Franciscana Capuchinha e 59 de ministério sacerdotal. O Deus de misericórdia certamente lhe concedeu a recompensa pela abnegada doação religiosa e sacerdotal com que enriqueceu a sua Igreja.

Irmãos Gêmeos

Frei Mateus era irmão gêmeo de Frei Jerônimo Gaspar Lopes
(+ fevereiro de 2003). Entraram juntos para o Seminário, para o noviciado. Até a morte de Frei Mateus, viveram e trabalharam sempre juntos. Os dois eram ardorosos missionários. Propagavam a devoção à Nossa Senhora de Fátima. Tinham um amor apaixonado pela mãe de Jesus.

Frei Joaquim Dutra Alves, O.F.M. Cap.

Frei Joaquim Donei

12/09/1909
26/06/2007

Frei Bento de Alba (Alberto Bruner) nasceu aos 21 de novembro de 1887. Filho de João Batista Bruner e Maria Lorenz. Vestiu o hábito aos 21 de fevereiro de 1903. Professou solenemente a 21 de novembro de 1908; a primeira profissão fora a 23 de fevereiro de 1904. Veio para o Brasil em outubro de 1937. Tinha sido ordenado sacerdote aos 6 de julho de 1913.

Como os demais coirmãos, Frei Bento dedicou-se ao apostolado normal em nossas igrejas, ao atendimento de confissões e especialmente ao trabalho em nossas capelas rurais. Parecia um tanto abalado em suas idéias, o que não lhe impedia rezar piedosamente a santa Missa e atender bem a todos os que o procuravam. Faleceu em Rovereto a 29 de junho de 1951.

(AOMC, 67, 196)

Frei Policarpo de Lévico

12/05/1859
27/06/1923

Frei Policarpo (José Delvai) nasceu aos 12 de maio de 1859. Era filho de Luís e de Isabel Delvai. Fez parte dos seus estudos no seminário diocesano de Trento, pretendendo seguir vocação para o clero secular. Sua capacidade, porém, era limitada. Deixando o seminário, onde era professor o capuchinho Frei Dionísio de Soraga, o jovem José não sabia que rumos tomar na vida. Dificilmente poderia ser aceito para os estudos superiores exigidos para a carreira sacerdotal.

Estando nesse dilema, certo dia aparece em sua casa um irmão capuchinho fazendo a costumeira “questua” e, sabendo do problema disse ao jovem: 

“Faça-se Capuchinho e será feliz”.

O pai viu nas palavras do frade uma revelação da vontade divina e insistiu com o filho para que a seguisse... Bem outro, porém, era o pensamento do jovem que não pretendia ser capuchinho e dizia ao pai: “Não tenho vocação para isso”!!

Contudo, para não desgostar o pai, foi até Trento falar com o Provincial. Ao subir o monte onde se encontrava o Convento, José foi rezando contínuas “Salve-Rainhas”, pedindo a Deus que não fosse aceito... Chamado o Provincial, ficou admirado, pois era seu professor de colégio diocesano, Frei Dionísio, que mesmo sabendo das dificuldades intelectuais do jovem, o aceitou sem qualquer dificuldade para o Noviciado... “De que me valeram, então, as Salve-Rainhas que rezei?!”, comentaria mais tarde, rindo-se...

Tendo vestido o hábito, fez sua primeira profissão aos 12 de março de 1881; solene a 13 de março de 1884. Foi ordenado sacerdote aos 23 de março desse mesmo ano.

Dez anos depois de ordenado foi enviado para o Brasil, aqui chegando a 13 de maio de 1894. Conforme já escrevemos em “Pastoral Missionária” “. Frei Policarpo foi pregador em muitas missões. Assim, já em julho de 1900 nós o temos com Frei Damião pregando em São José do Paraitinga, após uma longa viagem de trem e de 5 horas a cavalo. De 25 de novembro a 16 de dezembro de 1904, com o mesmo Frei Damião prega em Avaré, após terem pregado grandes missões em Descalvado em finais de 1903 e princípios de 1904. Em 1913, de 18 de junho a 15 de setembro, e de 27 de setembro a 8 de dezembro, missiona em Tietê e Porto Feliz, também com Frei Damião. Grandes missões realizara também em 1911, percorrendo Apiaí, Barra do Turvo, Iporanga, Salto do Rio Grande, Ribeira, Morro Agudo, Palmeiras, Capoeira, Tocos...

Frei Policarpo dedicava-se muito ao confessionário. Tendo dificuldades para a pregação, preparou uns quinze sermões que sempre repetia conforme as circunstâncias. Segundo seu colega Frei Damião, era muito delicado de consciência, de grande simplicidade, muito amante da pobreza e da humildade. A todos recomendava muito a devoção ao Anjo da Guarda.

Conta-se que certa vez, em missão, sendo Frei Policarpo o encarregado das espórtulas de crisma, aproximou-se dele uma mulher e o convidou a casar-se com ela. Mas, prontamente respondeu-lhe o Frei: “Vai-te embora, pois já sou casado com a Santa Igreja”!!!

Conta também Frei Damião que, certa vez, estando confessando o povo com Frei Policarpo, sendo longas as filas, este deixou repentinamente o trabalho e foi para a cama deitar-se... Pensando que estivesse doente, Frei Damião foi até seu quarto e perguntou-lhe: –”Está doente, Policarpo?” –”Não”, respondeu ele. – “Então, por que está na cama?” – “Porque já estou condenado ao inferno”, respondeu. E Frei Damião: “Mas, vá... o inferno já está cheio de gente e você não vai caber lá”... – “ Então, vou trabalhar”, concluiu o outro. E voltou para o confessionário.

Outra vez, muito cansado, disse ao companheiro Frei Damião:

– “Quanto trabalho!! Não há tempo nem para comer!! Mas, se eu for para o Céu, ali me deitarei numa cama com um pito na boca e dormirei, e pitarei toda a eternidade”... “Na verdade você se contenta com bem pouco,” –respondeu o companheiro.

Foi sempre muito ativo, sendo muitas vezes convidado pelo Bispo de Campinas e de outros locais para visitas diocesanas, auxiliando nas confissões, o trabalho mais pesado nessas ocasiões.

A 13 de maio de 1922 Frei Policarpo foi acometido de um derrame que lhe paralisou metade do corpo e a língua. Aos 25 de junho de 1923 repete-se o derrame, deixando-o em coma até dia 27, quando falece aos 15 minutos, cercado dos coirmãos de Piracicaba.

Entre outras coisas, dele escreveu Frei Damião:

“Foi sempre um ótimo religioso e verdadeiro missionário, pois empregou toda a sua preciosa vida dando missões por meses até, em cidades e vilas, em fazendas, na vastíssima diocese de São Paulo e na de Botucatu, tanto sozinho como em companhia de outros religiosos, principalmente deste pobre Cronista. Era particularmente nas Missões que o inesquecível Frei Policarpo praticava e revelava suas belíssimas virtudes. Não confiando em si mesmo, mas plenamente em Deus, pregava a Palavra divina alto e bom som. Flagelava com força o vício, máxime o da impureza, tão comum entre os povos e pelo qual muitas almas caem no abismo infernal. Exaltava as virtudes, exortava a todos a que deixassem o pecado e levassem uma vida honesta e digna. Mais ainda pregava com o bom exemplo, com uma vida mortificada e com santa e louvável conversação, de modo que todos os que dele se aproximavam, ficavam altamente edificados. Acolhia com suma amabilidade e com toda doçura os pobres pecadores e, com prudentes conselhos e exortações os persuadia a deixarem o pecado e a mudarem de vida e de costumes.

Os santos votos por ele professados, sempre foram observados até o escrúpulo. Era tão amante da pobreza que tendo um hábito todo remendado, não solicitava outro, sendo preciso que outro o pedisse por ele.

O amor à bela virtude... era realmente extraordinário e podemos dizer sinceramente que soube conservá-la sempre intacta. Sua obediência era sempre pronta e alegre. Obedecia cegamente não só nas coisas fáceis mas também nas difíceis, de tal modo que todos os superiores procuravam tê-lo como súdito.

Profunda era sua humildade, falando sempre bem dos confrades, alegrando-se muito pelo bem que faziam. Porém, falando de si mesmo, com toda persuasão dizia-se mesquinho, incapaz de tudo.

Atingido por um derrame a 13 de maio às 5 horas, na grave enfermidade que se estendeu por mais de um ano foi sempre resignado ao querer celeste e jamais saiu de seus lábios uma palavra de lamento contra a divina Providência ou contra os religiosos que o assistiam amorosamente.
Todos os que o visitavam, vendo-o tão paciente e resignado, ficavam altamente edificados. Todos os dias recebia a santa comunhão, nela encontrando seu conforto e a força para sofrer por amor de Deus as suas não poucas e graves dores.

Finalmente, acometido por segundo derrame, santamente morria, como santamente vivera, voando sua bela alma ao céu, para receber o prêmio de suas virtudes, e nutrimos firme confiança de que rezará por todos nós, seus confrades, para que, igualmente, após esta mísera vida nos seja dado fazer-lhe eterna companhia. Requiescat in pace”. (lº Tombo, pp.145-147)

Segundo consta em “Anais Franciscanos”, Frei Policarpo “foi religioso humilde, manso, agradável, exemplar e de uma rigorosidade para consigo, muitas vezes excessiva, qualidades que lhe cativaram facilmente as simpatias dos que chegaram a conhecê-lo de perto.

Sua vida de verdadeiro filho de São Francisco e de abnegado operário da vinha do Senhor, temos toda a esperança, já deve estar coroada com o prêmio dos justos na mansão da paz”. (agosto 1923, p. 248).

Frei Bernardo de Vezzano

16/12/1882
27/06/1947

Sem grandes espalhafatos, em seu silêncio e modéstia, Frei Bernardo (Bento Zanini), embora nem sempre citado nem bem conhecido, foi um dos grandes missionários de nossa Missão e Província. Nasceu aos 16 de dezembro, no Tirol-Áustria; no mesmo dia foi batizado. Era filho de Chiliano Zanini e de Virgínia Pisoni. Vestiu o hábito em Arco, aos 3 de novembro de 1898, tendo como Mestre Frei Teodoro de Taio. Professou solenemente em Malé, aos 21 de dezembro de 1903. Fez filosofia em Ala e Malé (1902-1903). Teologia em Malé (1º ano), em Trento (2º e 3º) e em Malé (4º ano). Ordenado sacerdote aos 28 de outubro de 1905, em Trento, por Dom Celestino Endricci. Concluíu estudos em julho de 1908, em Rovereto.

Partiu de Gênova para o Brasil aos 4 de maio de 1912. Chegou a Santos, em companhia de Frei Camilo, dia 21 de maio de 1912 às 23 horas. Permaneceu em São Paulo até o dia 28 de junho, quando parte para Penápolis.

Penápolis e a Noroeste foram um campo de grandes atividades de nosso Missionário. Com os demais missionários, percorreu toda essa região e a da Alta Paulista, sempre dedicado, incansável. Já aos 18 de julho desse ano vai até a longínqua São Jerônimo, na atual diocese de Rio Preto, num percurso de 9 horas a cavalo, ali ficando até dia 30, quando parte para Três Lagoas. Dia seguinte, Fazenda Ponte Nova, depois Palmeiras, Macaúbas, Mata, Rio Tietê, Aracanguá, Araçatuba, chegando a Penápolis a 10 de agosto, todo um percurso de missões. Não simplesmente batizar e casar, mas evangelizar, era a finalidade dessas andanças apostólicas. Igualmente, de 31 de agosto desse mesmo ano, nós o temos novamente com Frei Felicíssimo de Prada em Três Lagoas e Itapura. No dia 5 de setembro estão em Araçatuba onde celebram Primeiras Missas no local, num quarto do Hotel.

Tais viagens sempre foram revividas por outros frades da Noroeste, como Frei Sigismundo, Frei Domingos de Riese, Frei Liberato de Gries, Frei Vital de Primiero, Frei Epifânio de Vigo, Frei Policarpo, Frei Felicíssimo, e muitos outros, como já escrevemos nos livrinhos “Pastoral Missionária-1890-1980” e “À Sombra do Santuário”.

Incansável, disposto à causa do bem, dia 5 de dezembro, Frei Bernardo está em Missão no Rio Verde, entre os Xavantes, na colônia São José, no Mato Grosso, onde permanece até 4 de outubro de 1913. No dia seguinte está no Ribeirão das Marrecas, onde fica até 30 de outubro.

Nessas missões o frade terá vivido verdadeiro martírio ou sofrimento bem grande, muitas vezes sozinho, em meio a enxames de insetos, na angústia, na espera dos índios que não se aproximam. Seu Diário registra lacônicas mas eloqüentes expressões de profunda prostração ou depressão, revelando que ali estava mesmo somente por obediência. Sempre anota as condições meteorológicas, em geral 30 a 33 graus de calor, as chuvas, ventos etc., como por exemplo:

“Questo mese passô quase sempre piovendo, anche in me...” (novembro 1912). Por várias vezes: “In letto, Febre”. – “Giornata splendida”, (dezembro 1912)... “Un calor danado, pioggia, calor” (dezembro 1912).

“Molto soffri pei moschetti e il timor delle serpi che giá ier sera pela IV volta mazzamo nella casa. Ansietá, timori e speranza forma la vita del mission.” (Janeiro 1913).

“Gli mdi non si fecero piú vedere. Io piango la sua assenza, perché rende piú pennosa la mia vita in questa dimora tormentosa, zenza profitto, perche mancante de motivo”. (fevereiro).

“Questo mese passé bel tempo, ma riguardo mio, non avesse mai, neppur cominciat. Eviva.” (março).

“Com mio grande consolo uscii dable Catechesi” (abril 1913).

No dia 1º de julho de 1913 Frei Bernardo está novamente em Penápolis de onde parte para Três Lagoas, chegando ao Rio Verde no dia 4... E anota em seu “português-italiano”:

“Eu di nuovo in viaggio per la cattechesi. Oh me infelice”!

“Solo, soletto. Povero me! Oh tempo di pazia che furono questi due giorni (17-18 julho 1913)”.

“Oh mese sventurato” Il primo sacrificio off. presenti gli Indii silenziosi e ammirati fu oggi 31 (agosto 1913)”...

Tais expressões e desabafos tão humanos do missionário ficarão como testemunho dos infinitos sofrimentos silenciosos vividos por nossos irmãos que tudo deixaram, até a si mesmos, pela causa do Evangelho.... numa obediência sem dúvida heróica, quase sempre desconhecida, não propalada e muito menos por nós imitada...

No dia 13 de novembro de 1913 Frei Bernardo está em São Paulo, aí residindo até 9 de julho de 1914. Dia 11 está novamente em Penápolis, até janeiro de 1918. Neste ano, por cerca de mais de dois meses, com Frei Vital de Primiero, prega Missões no litoral paulista, missionando Faxina (Itapeva), Apiaí, Ribeira, Tocas, Turvo, Porto de Apiaí, Iporanga, Itauna, Xiririca (Eldorado Paulista), Iguape, Cananéia, Jacupiranga, Sete Barras e outros, onde, 23 anos atrás haviam pregado Frei Crispim de Rallo, Frei Silvério de Rabbi e Frei Vicente de São Tiago, irmão. De 30 de junho a 4 de outubro de 1920, missiona Bom Sucesso, Taquari, Manduri, Óleo, Santa Bárbara, Cerquilho, São Bartolomeu, Mandaguari. Note-se: por quase quatro meses.

De 1918 a 1921, Frei Bernardo reside em Botucatu e em Taubaté. De então até 1932, reside em Penápolis onde foi superior e vigário, de 1930 a 1933. Ali deixou saudade e fama de muito santo e atencioso como diretor do colégio São Francisco e em suas contínuas visitas aos enfermos. Deu grande atendimento às cidades da região: Braúna, Avanhandava, A. Lins, Glicério, Cafelândia, Araçatuba etc. Em Glicério foi o primeiro Vigário, embora residisse em Penápolis.

No período de 1933 a 1936 foi superior em Botucatu. Residiu depois em Santos, São Paulo e Piracicaba. Faleceu a 27 de junho de 1947, em Botucatu.

Pelo visto, muito devemos à extrema dedicação, zelo, disponibilidade e doação desse grande religioso e sacerdote que em seus 35 anos entre nós, regou com seus suores e com sua benigna presença a palavra divina que ele semeou em nossas terras e que hoje nos fornece – divina semente –, frutos de humanidade e de cristianismo. Muito do que hoje temos, nós devemos a Frei Bernardo...

(Cf. AOMC, 63, 217; REB, set. 1947, p. 730).

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