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Homilia do XXX Domingo do Tempo Comum - Ano C / Frei João Santiago

Publicado por Frei João de Araújo Santiago | 24/10/2016 - 11:34

XXX Domingo do Tempo Comum 

(São Lucas, 18, 9-14)

"É mais fácil deixar-se pregar com Cristo na cruz do que tornar-se com Ele uma criancinha balbuciante” (Edith Stein).

“Jesus lhes disse ainda esta parábola a respeito de alguns que se vangloriavam como se fossem justos, e desprezavam os outros: ‘Subiram dois homens ao templo para orar. Um era fariseu; o outro, publicano. O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma’: ‘Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros’. ‘O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo’: ‘Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!’ ‘Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado’”.

Rezar. Subiam ao Templo para rezar. Queremos entender que rezar seja o mesmo que suplicar, se refugiar e se apoiar na Fonte e Origem de tudo. Quem pode suplicar? Somente quem se vê necessitado. E quando, por acaso, não se vê em necessidade, quando reza de verdade, reconhece que um favor e uma graça lhe foi dada.

O fariseu, infelizmente, não suplica, mas se satisfaz de si mesmo, incensa a si mesmo, fala consigo, não com Deus (O fariseu, em pé, orava no seu interior ..., isto é, dizia para si mesmo). Elenca para si mesmo suas virtudes e méritos. O fariseu na sua educação e religião foi educado para isso. 

É... não é fácil reconhecer a  própria feiura, defeitos, limites, vícios, maus costumes e a própria antipatia. Não é fácil reconhecer a própria parcela nos desentendimentos que venhamos a ter. Por isso o fariseu se diz justo. Não o acusemos, mas reconheçamos que é difícil olhar-se no espelho, e é fácil apontar os defeitos alheios (“... não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali”). Quem já viu um fanático religioso reconhecer bondade naqueles que ele acusa? O fanático precisa acusar, pois se não acusa, sofre, entra em parafusos.

E, assim, o fariseu não consegue rezar, não consegue pôr-se de joelhos, reconhecer sua necessidade, seu lado escuro e seu pecado enquanto despreza os outros. Rezar é deixar de lado a embriaguez de si próprio, e passar a amar a Deus de todo o coração, de todas as suas forças e com todo o entendimento.

Quem já esteve num lar de crianças que esperam adoção pode muito bem imaginar o que seja rezar. Elas se mostram sempre afoitas, dispostas, em expectativas, esperando... um pai, uma mãe, irmãos e irmãs, uma família. Assim também o homem que reza: se dispõe, se oferta, se entrega nos braços do Pai, esperando regaço. Deus aqui é um caminho, alimento, amor, compaixão, conforto, nos piores momentos de solidão e de sofrimento, assim como os pais o são para sua criança. Rezar é encontrar a nossa origem, o colo, o regaço, a fonte ingênua e vivaz à semelhança de um balbuciante. Assim, livre da ideologia farisaica que se presta a elencar, como se fosse uma oração, méritos e direitos diante de Deus, uma nova experiência surge, uma nova liberdade, um novo nome. Aqui vemos quanto é feia a oração do fariseu: “... que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros”.

 

Sobre os méritos. É claro que o Senhor fica contente por nos ver dando frutos, exercendo a caridade, superando vícios, defeitos, etc. O problema se dá quando o cristão passa a apelar direitos de reconhecimento só porque pratica boas obras. Fazer boas obras deve ser motivo de alegria, felicidade e de ação de graças. Isso sim. E jamais serem usadas para se comparar, julgar e desprezar o outro. Demos graças a Deus pelo bem feito e por termos nos tornados pessoas melhores.

O Publicano reconhece sua miséria, é ciente do seu crime e do seu pecado. De fato, bate no peito, no coração. Para os hebreus o coração é a sede das escolhas. Reconhece o mal escolhido e feito. Eis a situação do Publicano: de um lado pratica o crime e de outro lado sabe que diante de Deus é um crime. Mas não só, pois reza, apela ao Senhor de ter misericórdia dele, de transformá-lo,  a fim de que ele abandone aquele mundo de crimes, roubalheiras e pecados que o domina.

Podemos imaginar que o fariseu volta para sua casa do mesmo jeito. Deus para ele continua sendo um ente que conta as boas obras e ao qual se deve informar os méritos. Deus para ele continua sendo um ente que anota as justiças praticadas como um bom escrivão. Só isso. Volta para casa se achando e desprezando. Já o publicano volta justificado, em paz com o Senhor. Por quê?

Por que um perdoado, justificado e outro não? Não olhemos nem a culpa do fariseu nem a humildade do Publicano. Deus, Jesus nos ensina, se atem muito mais ao desejo e necessidade do homem, ao seu convite de comunhão: “Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!”. O publicano mostrou, revelou sua necessidade: precisava da bondade de Deus, precisava de Deus.

Rezar, aprendemos com o publicano, é se abrir como uma porta entreaberta que deixa entrar raios de sol; é portar-se como uma vela que enverga, arqueia e se curva ao vento forte -  a um Outro maior que o pecado, que vem e que transforma.

Alguns detalhes. O fariseu acusa o outro de ser adúltero. No imaginário bíblico a idolatria é tida como um adultério. O fariseu rezava a si mesmo (“O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma...”. De forma irônica, São Lucas está dizendo que ele é o que dizia do publicano: ele é um adúltero, pois rezava a si mesmo, cometendo idolatria. 

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.