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Homilia de Frei João Santiago / Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

Publicado por Frei João de Araújo Santiago | 31/12/2016 - 17:00

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

(Lc 2, 16-21)

Quem acolhe um menor é a mim que acolhe

E foram (os pastores) apressadamente, e acharam Maria, e José, e o menino deitado na manjedoura. 17 E, vendo-o, divulgaram a palavra que acerca do menino lhes fora dita; 18 E todos os que a ouviram se maravilharam do que os pastores lhes diziam. 19 Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.20 E voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes havia sido dito. 21 E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido”.

- E os anos passam, e a humanidade caminha, e o Reino acontece, poucos encontram o Reino e muitos passam com seus anos e não se dão conta do Reino que se mostra.

- Os sábios, os filósofos, os simples, as religiões buscam o “mistério” da vida e o sentido do viver.

- A fé cristã apregoa que o Verbo de Deus, a expressão do misterioso Deus e sentido maior se mostrou, se fez carne de nossa carne no seio da Virgem de Nazaré.

- Os pastores viram a Palavra, o Verbo de Deus. O “mistério”, o sentido de tudo se encarnou, ganhou forma, forma de um bebê.

- Tal verdade deixou a todos maravilhados, espantados (cf. Lc 2, 18). Aqui temos muito por meditar. Maravilhado, espantado, pasmo, desnorteado, estonteado significa que eu perdi minhas seguranças, a minha maneira comum de pensar e considerar as coisas. Algo apareceu na minha frente. Uma verdade eu fiquei sabendo que deixou o meu mundo em pedaços e aquilo que eu acreditava antes foi por “água abaixo”. “Ver” a Palavra num “pedaço de carne”, naquele bebezinho tão frágil não é para qualquer um. De fato, na Bíblia se diz que quem vê a Deus morre: “Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos” (Is. 6, 5).

- Pelé, quando fez o último gol da partida contra a Suécia em 1958 desmaiou no gramado de tanta emoção. Aquilo, para ele, era inacreditável. Não podia acreditar ser campeão do mundo naquela idade e sendo, ele, o protagonista. Foi mais forte que ele: ele desmaiou de tanta maravilha.

- Na passagem de hoje, São Lucas desmonta uma crença, aquela de que o Messias seria aquele que justificaria nossa violência. Um Messias vingador como um “Rambo” era o esperado: era o Deus esperado. Por isso o “Menino Deus” é uma surpresa e causa espanto, maravilha, susto. Qual é o seu Deus esperado? Qual sua imagem de Deus?

- O Messias se apresenta “frágil”. Isso é inacreditável. Causa espanto, maravilha e nos deixa estonteado.  A fragilidade do Menino Deus só pode nos provocar uma coisa: gestos de ternura e carícias. E é entre os afagos que se fazem aos bebês que as almas se unem, que as pessoas se desmancham de amor. Diante dos pequenos bebês acontece a confiança recíproca. Aquilo que acontece entre um bebê e os adultos que o visitam, se torna um chamado a acontecer entre nós. Só há este caminho para salvar a nossa humanidade, as nossas famílias, as nossas comunidades. A força do nosso Deus que pode sanar nossa humanidade doente é marcada pela ternura, carícias, afagos, confiança recíproca, deleite no outro ser humano.

- Todos viemos ao mundo nus e sem propriedades: totalmente entregues, dados em corpo e em alma (até o próprio “eu” é quase inexistente). A mortalidade se expõe ao máximo, por isso os bebês precisam de tantos cuidados. Quem contempla um bebê percebe que ele vive padecendo a vida da fonte da vida, o Pai.

- Deus, revelado no “Menino Deus” não é um “ab-solus” (absoluto), não é um solitário, mas uma comunhão trinitária: o Filho recebe a vida do Pai, o Pai entrega toda sua vida ao Filho, o Espírito é a vida entre o Pai e o Filho. O “Menino Deus” nos diz quando me aferro desespero e egoisticamente a mim mesmo, me mato e mato outros. A Salvação nossa e da humanidade somente haverá se aceitarmos a esse “Menino Deus”. Diante de um cenário marcado por tanta agressão, por tanta violência doméstica e familiar, por tanto abuso, desmandos, e interesses vãos, anunciar o “Menino Deus” é uma questão urgente e de sobrevivência.

- O “Menino Deus”, o balbuciante, expressa a vida como um dar e receber, como uma complexa interação entre os seres vivos, como abandono e sumiço amoroso. É um não impor obstáculos ao mistério que palpita e lateja para vir à tona. O “Menino Deus” fala de um mundo interior e verdadeiro, o mundo real e amoroso.

- Deus, dando-se como “Menino Deus” à toda a humanidade nos revela que “Deus nos amou por primeiro” (cf. 1 João). Somos amados, acolhidos naquele Bebê. Mas como encarar tal Luz, tal Verdade e tal Surpresa, e ainda continuar em pé, e não desmaiar? Só há uma maneira: ver tal Surpresa através da carne, da humanidade. Há tanta humanidade por aí: a minha esposa, o meu marido, meus filhos e filhas, meus irmãos, os enfermos, os pobres, os escravos do tráfico de drogas e prostituição, os suicidas, etc.

- Qual será o resultado se por acaso aceitarmos esse Deus amoroso, o “Menino Deus”? Venceremos a morte, pois “quem ama passou da morte para a vida” (1joão).

- A expressão da resistência ao “Menino Deus” foi Herodes. Ele tentou matá-Lo. Não aceitar o “Menino Deus” é imitar Herodes, é incensar a si próprio, é embriagar-se de si mesmo, é adorar a si, é....

Maria, mãe de Deus.

- A nossa fé católica proclama que Jesus é uma só pessoa com duas naturezas: a humana e a divina. Maria é a mãe de Jesus que é Deus e homem. Daí o título de “Maria, mãe de Deus. Maria é mãe de Deus enquanto mãe de Jesus, enquanto Jesus é Deus.

- “.... Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração”. Tudo o que acontece conosco tem um fio da meada, um sentido. A vida não é absurda. Mas como descobrir o sentido?  Conservando silenciosamente as coisas que acontecem conosco e ponderando-as em seu coração. Que as surpresas da vida não sejam descartadas, mas consideradas: nelas Deus se dá, se mostra, atua.

- O Invisível Deus se mostrou visível através da melhor carne, da melhor humanidade. Não se pode separar a humanidade de Jesus da humanidade de Maria, pois ela concebeu por obra do Espírito Santo. Ela e o Espírito Santo geraram Jesus de Nazaré. Foi vontade de Deus que conhecêssemos à Ele através da carne, da humanidade de Jesus que é carne, humanidade, de Maria. Foi vontade de Deus que conhecêssemos o seu verdadeiro rosto através de Maria. E tudo indica que sem Maria não podemos acessar o verdadeiro Deus. Sem Maria os homens tendem a apresentar Jesus mais como um Rambo justiceiro do que como um “Menino Deus”.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.